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A cura

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Respirar é arriscado. Uma doença perversa, que explora a fragilidade de grandes aglomerações, que diminui a harmonia das relações humanas, nos forçando, por vezes, a esconder atrás de máscaras, que, só neste ano, já tirou mais de 300 mil vidas. Isso tudo você já sabia.

O que você não sabia é que já existe cura. Isso mesmo: CURA. Inclusive, há mais de um tratamento, todos com excelente eficácia, comprovados cientificamente. E não só: existe vacina eficaz na prevenção de formas graves. Surpreso? Mais um detalhe: a vacina e a cura existem há décadas.

Sobre o que estamos falando?

Respire com calma, pois estamos falando de tuberculose. Algumas semelhanças foram exploradas para despertar o interesse e a reflexão. Não há aqui nenhum objetivo de menosprezar o impacto avassalador da pandemia atual nos sistemas socioeconômicos, de saúde e na inestimável perda humana, muito pelo contrário.

“E qual a pertinência disso? Precisamos focar na COVID19!”. Naturalmente, mas não só. Estamos sendo negligentes. A tuberculose mata cerca de 1,5 milhão de pessoas por ano, sendo a maior causa de morte infecciosa – há décadas – bem como uma das 10 maiores causas de morte geral. Por que isso não nos incomoda? O que nos dói? Números? Pessoas morrendo ou pessoas morrendo de COVID?

Grandes desafios

Essa provocação não visa culpabilizar pessoas à distância, mas sim captar a atenção para grandes desafios que a humanidade enfrenta há muito tempo, e que frequentemente só vêm à tona em períodos de crise.

Existe um padrão socioeconômico para diversas doenças. Tuberculose, malária, desnutrição e mesmo o infarto – maior causa de morte no mundo. O acesso à prevenção e ao tratamento dessas e de diversas condições difere entre os países e classes sociais.

Na cidade do Rio de Janeiro, segunda maior e mais rica do Brasil, centros de excelência que proporcionam terapias de ponta ficam a algumas centenas de metros de hospitais públicos cujas filas denotam o que há de pior da miséria humana: falta de profissionais qualificados, times sobrecarregados, falta de remédios básicos, pessoas internadas em cadeiras.

Em regiões pobres da América, da África e da Ásia fome, desnutrição e doenças endêmicas tiram milhões de vidas, muitas delas de crianças. Isso tem que nos doer.

A dignidade que a grande massa precisa

Mais do que saúde, a grande massa, do país e do mundo, carece de dignidade. Se ampliássemos a rede sanitária e abastecimento de água, se corrigíssemos o déficit habitacional, se garantíssemos alimentação e tratamentos básicos às populações mais vulneráveis, os números, que tanto nos doem (ou deveriam) seriam muito menores.

Se fragilidades socioeconômicas são ambiente fértil e comum para vários adoecimentos, a correção das mesmas constrói um alicerce sólido para uma realidade mais digna, saudável e próspera, freando não só uma, mas diversas mazelas.

A cura que precisamos

A maior doença que existe é desumanizar o outro. “Aqueles chineses com péssimos hábitos de higiene comedores de cachorro!”. Pronto: 1 bilhão de pessoas, um sétimo de todos nossos semelhantes, diminuídos, fora dos limites da nossa solidariedade, empatia, senso de responsabilidade e juízo moral. Não mais vemos um país onde mais de 600 milhões de nós vivem abaixo da linha da pobreza. Se tudo isso continuar a não doer, e se o melhor que tivermos a oferecer for nosso desumano julgamento, talvez nós sejamos a doença, e o coronavírus uma tentativa desesperada da Terra para se curar de nós.
Yan Ribeiro, médico do Grupo Conexa Saúde

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