Ao longo das últimas semanas, fomos pouco a pouco sendo jogados em um verdadeiro redemoinho que lançou para o alto nossas rotinas. Muito se debate sobre como será a vida pós pandemia e isolamento. Porém, desde agora, já vivemos intensas transformações, ou será que alguém discordará que mudaram completamente nossa forma de lidar com idas e vindas para além da porta de casa?

Agora imagine para as pessoas vivendo com algum tipo de câncer… Pacientes propriamente ditos, familiares e amigos, equipe multidisciplinar. O que muda para elas? O que muda para os centros de oncologia? No que tem se transformado a assistência à saúde desses pacientes? Acompanhe nosso texto!

Categoria de risco

Para início de conversa, você saberia reconhecer, entre os pacientes com câncer, quais aqueles em grupo de risco?

  1. Pacientes atualmente em tratamento de quimioterapia, de radioterapia ou que receberam tratamento no último 1 mês;
  2. Pessoas que fizeram transplante de medula óssea ou de células-tronco nos últimos 6 meses;
  3. Aqueles em uso de remédios com efeito imunossupressor;
  4. Pessoas com alguns tipos de câncer no sangue ou no sistema linfático que, apesar de não necessitarem de tratamento, acabam por ter prejuízos ao sistema imunológico, por exemplo leucemia crônica, alguns tipos de linfoma ou mieloma múltiplo);
  5. Pacientes com câncer que são grupo de risco especificamente por conta de algumas alterações no sistema imunológico, apresentando alterações tais como:  
    1. Leucopenia (baixo número de leucócitos);
    1. Níveis baixos de imunoglobulina;
    1. Imunossupressão de longa duração (esteroides, anticorpos).

Lembrando ainda que todos os indivíduos com idade acima de 60 anos, portadores de doenças crônicas diversas (ex. diabetes, doenças cardiovasculares e respiratórias) têm maior risco de apresentarem complicações graves em caso de infecção por COVID-19.

Adaptações necessárias

Para começar, é importante salientarmos que nenhum tratamento deve ser interrompido ou trocado sem que essa decisão seja tomada e compartilhada junto à equipe que acompanha o paciente no tratamento.

Medidas Gerais

Também valem para o paciente com câncer as medidas recomendadas à população como um todo:

  • Lavar bem as mãos com água e sabão (lembre-se da técnica correta!);
  • Cumprir o isolamento social, evitando aglomerações e contato com pessoas com sintomas gripais;
  • Evitar cumprimentos com contato físico, como abraços e beijos.

Terapias e consultas

Agora olhando para a situação específica do paciente oncológico, sempre pesando os prós e os contras, algumas adaptações podem ser necessárias a fim de se minimizar o efeito deletério causado por alguns protocolos de tratamentos ao sistema imune.

O importante é evitar a presença inadvertida do paciente em instituições de saúde que, neste momento, podem ser um grande ímã para indivíduos potencialmente infectados pelo coronavírus:

  • Sempre que possível converter tratamentos intravenosos em orais ou subcutâneos, por exemplo, agentes hormonais e terapias alvo;
  • Preferir esquemas de quimioterapia menos citotóxicos, reduzindo o risco de complicações que venham a exigir internação hospitalar, ou ainda interromper momentaneamente as terapias se a doença estiver estável;
  • Considerar esquemas de radiação mais curtos/acelerados ou hipofracionados (maior dose por fração com menor quantidade de frações/sessões), quando cientificamente justificados e apropriados para o paciente;
  • Ademais, sempre que possível postergar visitas de acompanhamento, fazer consultas por meio da telemedicina e orientar pacientes com febre e outros sintomas a não irem a centros de saúde (evitando exposição desnecessária a outros pacientes).

Cirurgias

A situação atual também leva ao adiamento ou cancelamento de cirurgias eletivas, inclusive oncológicas, podendo também ocorrer a sua substituição por outro tipo de tratamento.

Apesar de parecer uma negligência para com os pacientes, devemos nos lembrar da complexidade comumente existente nos procedimentos cirúrgicos oncológicos, estendendo-se desde o seu pré-operatório, até o seu pós-operatório, muitas das vezes fazendo-se necessário a admissão  do enfermo num leito de CTI, estadia essa altamente requerida em tempos de COVID-19.

Porém e as cirurgias de urgência? Considerando regiões com transmissão local, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) recomenda manter as cirurgias oncológicas caracterizadas como urgências, ou seja, de tumores de comportamento extremamente agressivo, cujo atraso no procedimento por 2 a 3 semanas resultaria em dano maior e irreversível ao prognóstico do paciente ou óbito. As cirurgias de emergência seguem sendo realizadas normalmente.

Quanto à avaliação de novos casos, recomenda-se o uso da telemedicina para triagem dos pacientes que necessitem de avaliação presencial, dando especial atenção a tumores de maior agressividade, tais como de pâncreas, fígado e vias biliares, estômago, cólon e reto, pulmão, ovário avançado, endométrio avançado e melanoma.

No dia do tratamento

Seguem algumas dicas adicionais:

  • Ter somente um acompanhante, preferencialmente com menos de 60 anos (atentar para os grupos de risco!), naturalmente sem sintomas de resfriado ou de gripe;
  • Manter distância de outras pessoas (1-2 metros), inclusive da equipe de saúde e de outros pacientes;
  • Evitar circular pelo hospital desnecessariamente; lembre-se que não é um passeio, portanto, atente-se somente aos espaços indispensáveis;
  • Não permanecer no local de tratamento por mais tempo do que o necessário;
  • Manter os cuidados de prevenção para com as mãos:
    • Higiene pessoal, lavando com água e sabão ou, na sua ausência, usando álcool em gel;
    • Ao espirrar ou tossir, cobrir nariz e boca com lenço ou antebraço;
    • Não levar as mãos às regiões de mucosa facial (olhos, nariz, boca…).
    • Evitar compartilhar objetos pessoais, como celulares, canetas ou quaisquer objetos que possam ser passados de mão em mão.

Referências:

van de Haar, J., Hoes, L.R., Coles, C.E. et al. Caring for patients with cancer in the COVID-19 era. Nat Med (2020). https://doi.org/10.1038/s41591-020-0874-8

European Society for Medical Oncology. ESMO, 2020. Cancer patient management during the covid –19 pandemic. Disponível em: <https://www.esmo.org/guidelines/cancer-patient-management-during-the-covid-19-pandemic?hit=some>.  Acesso em 18 de Abril de 2020.

Instituto Nacional do Câncer. INCA, 2020. Perguntas frequentes: câncer e coranavírus. Disponível em: <https://www.inca.gov.br/perguntas-frequentes/cancer-e-coronavirus-covid-19 >. Acesso em: 20 de Abril de 2020.

Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica. SBCO, 2020. Epidemia de Covid-19: pronunciamento da SBCO. Disponível em: <https://www.sbco.org.br/central-de-noticias/view/epidemia-de-covid-19-pronunciamento-sociedade-brasileira-de-cirurgia-oncologica>. Acesso em 21 de Abril de 2020.

Autores: Isabella Gutierres, aluna de medicina e estagiária da CONEXA, e Murillo Castro, aluno de medicina