Apesar dos primeiros estudos com a família do Coronavírus terem surgido em meados da década de 1960, a sua variação SARS-CoV-2, é muito nova e os cientistas ainda divergem um pouco sobre a sua origem.

O primeiro alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a Covid-19 foi emitido em 31 de dezembro de 2019. Por isso, é natural que surjam muitas dúvidas a respeito e na área da reumatologia, que é o nosso foco, não é diferente. A principal delas é se os doentes reumáticos deveriam ou não continuar os seus tratamentos e, logo em seguida, também veio a polêmica sobre a cloroquina.

Esclarecimento de mitos

Prof. Georg Schett, responsável pelo Departamento de Reumatologia e Imunologia da Friedrich-Alexander-University Erlangen-Nuremberg (FAU), nosso consultor e parceiro na área científica, que gentilmente escreveu o prefácio do nosso livro “A Família Cobra, a Medicina e a Reumatologia – 75 anos de Paixão, Tradição e Inovação”, divulgou recentemente na conceituada revista Nature a prévia de uma revisão que esclarece alguns mitos que têm sido criados em relação ao tratamento das doenças reumáticas.

Tratamentos com fármacos imunobiológicos

No tratamento de doenças como Artrite Reumatoide e Espondiloartrites podemos utilizar medicamentos chamados imunobiológicos.

São fármacos que ajudam a modular e/ou inibir a inflamação causada no organismo por doenças autoimunes. Para alguns, os pacientes que fazem uso desse tratamento são classificados genericamente como imunossuprimidos e, portanto, em um momento de pandemia como o que estamos vivendo, os tratamentos deveriam ser suspensos.

Porém, o que eu penso e o que a ciência tem nos mostrado é que a realidade não é bem assim. Nós na Clínica de Reumatologia Prof. Dr. Castor Jordão Cobra e nos 8 hospitais onde somos responsáveis pelo serviço de reumatologia, não temos orientado nossos pacientes a interromperem seus tratamentos durante a epidemia.

A infecção por SARS-CoV-2 eleva muito a quantidade de citocinas pró-inflamatórias na pessoa doente. Segundo o estudo liderado pelo Prof. Georg Schett, alguns pacientes com COVID-19 expressam uma avalanche de citocinas criando um estado hiperinflamatório desencadeado por essas infecções virais.

Imunobiológicos em relação à COVID-19

Os tratamentos com imunobiológicos diminuem a ação ou a expressão de algumas citocinas que estão envolvidas na resposta inflamatória. E exatamente por conta dessa propriedade, em relação ao novo coronavírus, em pessoas que estão sob tratamento com esses fármacos, há diminuição da cascata inflamatória deflagrada pela ação do vírus, mas não há interferência nos processos de eliminação e de formação de imunidade contra o vírus.

Essas citocinas são críticas para a resposta inflamatória do organismo contra o coronavírus, que são um dos pilares moleculares das manifestações clínicas catastróficas observadas e, em alguns casos, o paciente pode vir a ter a infecção, criando anticorpos, porém com sintomas muito mais leves do que o esperado.

Esses estudos nos ajudarão a entender melhor o impacto do COVID-19 em pacientes com doenças imunoinflamatórias e traçar novas estratégias de inibição de citocinas.

Sabemos da urgência de encontrar um tratamento eficiente ou uma vacina para a COVID-19, mas a ciência precisa de tempo. Nós, da Cobra Reumatologia, estamos conduzindo aqui no Brasil, com o apoio do Hospital Santa Paula e do DASA, um estudo já aprovado pela CONEP que está a monitorar o comportamento clínico e laboratorial dos doentes reumatológicos em tratamento durante esse período de epidemia do novo coronavírus.

Os resultados ainda são preliminares, mas bastante animadores e serão publicados em breve.

Para ler o artigo completo do Prof. Dr. Georg Schett, acesse: https://www.nature.com/articles/s41577-020-0312-7

Texto – Jayme Fogagnolo Cobra, Médico na Clínica de Reumatologia Prof. Dr. Castor Jordão Cobra.